No dia 25 de novembro, assinala-se o Dia Internacional da Não Violência Contra as Mulheres. No passado dia 25 de novembro, eu assinalei-o, de manhã à noite, com mulheres. Não por acaso, foi também neste dia que a minha carreira artística profissional começou, há dez anos. São caminhos longos, o meu curto. E hoje, ao contrário do que é hábito, porque quero falar das mulheres que estão vivas, venho expor o meu privilégio.

Comecei o dia a ouvir o podcast A Beleza das Pequenas Coisas, do Bernardo Mendonça. Só o título, que é uma coisa pequena, me encanta. A convidada era a Ana Moura. A Ana é minha amiga e este é o primeiro privilégio que trago, do qual falo pouco, menos ainda publicamente. Só que, enquanto a ouvia ao longo da A1, sentido Lisboa - Coimbra, dei por mim a querer estender um cartaz à beira da estrada, dizendo: alto e para o Arraial Triste, que agora vai passar uma Andorinha. Lá vai ela, lá vai ela. Eu estava com a Ana quando ela comprou o azulejo da Casa Guilhermina, nome da sua casa que viria, anos mais tarde, a ser o nome do Seu disco. Ninguém sabia isso na altura, apenas que a casa da Ana é uma janela escancarada para o mundo. Não é de estranhar portanto que, desde que a conheço, me lembre de a ouvir dizer que queria voar. Agora, vejo-a passar no céu todos os dias.

A curiosidade, a maestria, a exigência no detalhe, a originalidade, o arrojo, a coragem, a força, a delicadeza, a profundidade, a sofisticação, a humildade são características que me inspiram. Por isso, a Ana inspira-me. Ainda assim, com a distância possível, de artista para artista, consigo perceber que a Ana Moura me abre portões, a mim e a todas as cantoras e compositoras de língua portuguesa. Não esquece a palavra, não esquece o tempo que avança, não esquece a música nova que se faz, não esquece as origens, não se esquece de quem é e de quem vai sendo. E é uma mulher a fazê-lo, como quer. Isso não é pouco. De pé, aplaudo e agradeço.

Cheguei finalmente a Coimbra, onde me esperava em modo de anjo da primavera a aquecer o fim do outono, vestida de branco com flores coloridas, aquela que é a primeira grande mulher da minha vida, a minha mãe. Outro privilégio, este das filhas. No meu caso, filha da poesia, da escrita, de uma professora do Ensino Especial, de uma seguidora do Movimento da Escola Moderna, de uma menina do campo e das árvores de fruto, de uma mulher que suspendeu um curso para me dar à luz e ao qual só regressou quando era eu adolescente. Talvez por isso eu goste tanto de estudar, está-me no sangue. E tenho podido não suspender nada porque ela um dia não pôde. É o meu rebento de luz. De pé, aplaudo, aconchego-me e agradeço.

Terminei o dia numa antiga igreja, agora uma sala de espetáculos do Convento de São Francisco, com o nome de um antigo rei, D. Afonso Henriques. Fui ver o concerto do Coro das Mulheres da Fábrica, um projeto pensado inicialmente pela Vânia Couto, de quem me tornei amiga relâmpago no início deste ano. O terceiro privilégio que venho declarar. No meio da pompa e da circunstância e da torre da Universidade ao fundo e do pé direito alto e da sala esgotada, perto de 50 mulheres em trajes simples e simbólicos acomodam o palco. Há adufes e um acordeão. Há um manifesto: que todas cantem, bem ou mal, porque o coro é a voz de cada uma. Há canções em português de Portugal e do Brasil, em espanhol. Há a mudança da convenção, ao vivo, sem hesitação. Há um grito coletivo no sub-texto dos individuais: o nosso grito, o das mulheres.

A Vânia sabe que o projeto do Coro das Mulheres da Fábrica é de todas, nunca me permitiu destaques nem louvações. Eu sou dos coletivos! E é. Vem do teatro, foi a voz de vários projetos, um dos quais os Pensão Flor, tem a alma toda do norte, vai às raízes da música, das músicas do mundo, dedica a vida a fazer arte na cidade onde eu nasci não sendo a sua, representa-me sem ser deputada. Diz o que precisa de ser dito, ergue uma noite escura até que a lua apareça. Talvez até se zangue porque escrevi de mais, mas acabar um concerto de mãos dadas com artistas e público, a cantar a 50 mais 300 vozes um cante alentejano, é memória viva e é um gatilho para o coração. De pé, aplaudi, emocionei-me e agradeci.

Lá vão elas, lá vão elas. Como estas de que falei, há muitas. A mim, resta-me dedicar o texto àquelas que não estão cá para o ler ou que, por alguma circunstância opressora, não o podem ler, assegurando que estamos cá para continuar a fazer o que ainda não foi feito.

** Rita Dias é cantora, escritora e atriz. Lançou dois discos, participou no Festival da Canção e editou um livro de poesia em Portugal e no Brasil. Prepara-se para lançar novo disco e novo livro.

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